Aprendendo com Dirty Harry
As pessoas que acham que o direito de possuir armas faz parte daquilo que se chama costumeiramente de ‘liberdades individuais negativas’ – proteção contra a intervenção do Estado na vida privada – deviam passar numa locadora perto de suas casas e alugar dois filmes de um mesmo diretor: ‘O fora-da-lei Josey Wales’ (1976) e ‘Sobre meninos e lobos’ (2003), ambos do ícone americano Clint Eastwood. Com isso poderiam aprender a rever suas posições, ou pelo menos sofisticá-las um pouquinho, como parece ter feito o próprio Clint.
Josey Wales (Clint Eastwood) a princípio não queria se meter com a Guerra de Secessão, mas se sente compelido pela vingança a tomar parte nela depois que um grupo de mercenários a soldo dos estados pró-união massacra a sua família. Acaba ingressando num grupo de justiceiros, que combatem com heroísmo os exércitos do norte pela liberdade do sul.
Quando a guerra termina, Josey não quer saber dos acordos de paz. Principalmente porque eles implicavam uma traição – passar para o outro lado, para o exercito yankee, tão corrupto quanto as forças do sul se acabam revelando. Josey encarna então o homem absolutamente livre, desimpedido e alheio a qualquer tipo de lealdade forçada: o herói americano que povoa os sonhos eróticos de dez entre dez republicanos e de toda a moçada da National Rifle Association.
Em ‘Sobre meninos e lobos’, nada mais é preto no branco. O sujeito que toma para si o direito de vingança tem de encarar seu erro terrível, depois de consumada. O suspeito do crime a ser vingado é um homem com a vida destroçada, que não tem mais em suas mãos as rédeas de sua própria sanidade, e por isso eventualmente pode de fato ser o culpado, embora mereça compreensão. A vingança não se consumará sem a destruição de uma quantidade incalculável de trajetórias de vida, para além da capacidade de compreensão dos personagens.
Como a vida tende a se comportar mais da segunda maneira do que da primeira, seria bom repensar essa segurança que alguns sujeitos pensam advir de um cano fumegante. E também essa idéia de que a liberdade de um indivíduo chega ao ponto de ele poder legitimamente fazer justiça com as próprias mãos.
Joaquim Toledo Junior
Escrito por toledo às 19h13
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Paranóia geral, burrice animal, ou desonestidade intelectual ?
O referendo sobre a proibição do comércio de armas revelou-se mais um campo fértil para os fascistóides que assolam este pobre país. A internet, como não podia deixar de ser, é mais uma vez o veículo predileto para a disseminação de uma mistura revoltante de preconceitos, mentiras deslavadas e delírios – que vêm se juntar a campanhas anteriores em outras áreas.
Alguns exemplos desse tipo de lixo – que eu recebi via e-mail – são suficientes :
# 1 : uma “biografia” de Hitler, que é “comparado” a Lula ( “a semelhança é impressionante”, diz o material ), e que termina com o seguinte P.S. : “ Faltou falar do desarmamento que Hitler fez na Alemanha, para depois exterminar a população desarmada, dentro da sua própria casa...”;
# 2 : um “artigo” atribuído a um certo “Dom Moraes”, apresentado como “bispo diocesano” de B. Horizonte ( aparentemente, da Igreja Católica Brasileira ); após uma longa série de delírios conspiratórios sobre “ poderosos grupos estrangeiros “, Banco Mundial, FMI e “além, é claro, da ONU “, conclui com as seguintes afirmações : “a arma é um ícone da independência do cidadão diante do Estado e o esteio da propriedade privada “; “...o cidadão...se dispõe a enfrentar a tirania. É por isso que, para a implantação do chamado ‘ controle social ‘ da população, é imperioso desarmar os cidadãos “.
Arrisco-me a afirmar que, após as eleições municipais de 2004, houve um grande aumento das manifestações públicas de intolerância, preconceito, obscurantismo, e desprezo geral com a “choldra ”- como diz Élio Gaspari - por parte da classe média alta. Nos exemplos acima, o ataque não-disfarçado é contra Lula e o PT, como ocorre na enxurrada de piadas e comentários sarcásticos disseminados por e-mail. Mas os ataques não se restringem a Lula e ao PT : ataca-se desde a orientação sexual até a participação de analfabetos nas eleições, os movimentos sociais organizados, as populações de sem-teto e faveladas. Subjacente a tudo parece estar um arremedo de contra-revolução tardia dirigida ao fim da escravidão : pois o que se faz, ao fim e ao cabo, é implícitamente – e às vezes explìcitamente – negar o direito da massa da população a um pouco menos de injustiça social e a um pouco mais de representatividade política autêntica.
Confesso que me horroriza e me enoja, cada vez mais, o caminho que segue parcela preponderante da elite brasileira.
Joaquim Elói Cirne de Toledo, Sr.
Escrito por toledo às 18h21
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Hurrah, die Butter ist alle!

John Hartfield: a resolução não é boa, mas o quadro mostra uma familia alemã comendo alegremente peças metálicas, e a inscrição: 'Viva, acabou a manteiga!', numa alusão à estupidez do nazismo. O paulistano que votou no Serra deve pensar parecido, algo como 'Viva, acabou a política!'. E engole cimento e borracha feliz.
joaquim toledo jr.
Escrito por toledo às 16h44
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